Uma Visita Inesperada

28 06 2007

“Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo” (Ap 3. 20).

Um quarto desarrumado ou uma casa desarrumada sempre traz uma sensação de desconforto. A situação fica ainda pior quando recebemos uma visita inesperada exatamente na hora em que a casa está aquela bagunça. Há momentos em que gostaríamos de ter alguém em nossa casa vinte e quatro horas por dia, somente para arrumar a casa e colocá-la em ordem.

Isso me faz lembrar certa ocasião em que eu estava hospedado em um hotel e o quarto estava aquela confusão. O quarto estava totalmente desarrumado. Havia toalhas molhadas no chão e a cama estava desarrumada. De repente, alguém tocou a campainha. Eu abri a porta e lá estava um funcionário do hotel, bastante simpático, que viera para arrumar o quarto. Eu fiquei muito constrangido com toda aquela confusão e tentei me justificar com o funcionário e dizer-lhe que eu não me sentia confortável com o quarto desarrumado daquele jeito. O jovem sorriu e disse: “Não se preocupe, senhor. Eu vim para arrumar o seu quarto. É para isso que eu estou aqui”. Aquela situação me levou a pensar sobre uma coisa: às vezes a nossa vida é como um quarto ou uma casa desarrumada.

ÀS VEZES, A NOSSA VIDA ESTÁ COMPLETAMENTE DESAJUSTADA. Nossa saúde vai mal. Nossa família está cambaleando. Nossa vida profissional está ruim. Nossos amigos nos abandonaram. Mas, de repente, um visitante inesperado bate à nossa porta. Esse visitante conhece os nossos problemas como ninguém. Ele sabe de tudo o que se passa em nossa vida. Ele quer participar de nossa vida. Quem é ele? Seu nome é Jesus! Nós resistimos em abrir a porta porque a nossa vida está uma bagunça. Sentimo-nos envergonhados, mas, Jesus está do lado de fora. Ele insiste. Ele bate mais forte. Não desiste! Até que chega uma hora em que abrimos a porta, muito constrangidos, e ouvimos a sua doce palavra:

  • “Não se preocupe. Eu vim para arrumar a sua casa. Eu vim para organizar a sua vida.”
  • “Eu estou há muito tempo do lado de fora aguardando o momento de você abrir a porta, mas valeu a pena esperar”.
  • “Agora eu tenho a alegria de entrar na sua casa e organizar a sua vida.”

Jesus tem organizado as vidas de milhares de pessoas e, hoje, ele quer organizar a sua vida. Jesus tem batido à nossa porta de várias maneiras: através da solidariedade de amigos, através de circunstâncias favoráveis ou desfavoráveis, ou através do pastor em busca da “centésima ovelha”. Mas, há uma voz contrária a do Senhor Jesus. Aquela que diz: “Esse pastor não está interessado em você, mas no seu dízimo! Se ele estivesse realmente interessado em você, não insistiria tanto! Ele só quer o seu dinheiro!” Em geral cometemos dois erros que nos afastam de Jesus.

1) Pensar que somos bons e não precisamos de Jesus.

2) Pensar que somos maus e indignos de estar na presença de Jesus.

O profeta Isaías, que viveu aproximadamente, 700 anos antes de Cristo, também se sentiu indigno de estar na presença de Deus. Era o ano da morte do rei Uzias. A nação de Israel estava em um verdadeiro caos. Desesperado, Isaías foi ao Templo para orar ao Senhor. O texto de Isaías 6, versos de 1 a 5, nos fala sobre a experiência de Isaías. Diz assim:

“No ano da morte do rei Uzias, eu vi o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono, e as abas de suas vestes enchiam o templo. (…) Então, disse eu: ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros, habito no meio de um povo de impuros lábios, e os meus olhos viram o Rei, o SENHOR dos Exércitos! Então, um dos serafins voou para mim, trazendo na mão uma brasa viva, que tirara do altar com uma tenaz; com a brasa tocou a minha boca e disse: Eis que ela tocou os teus lábios; a tua iniqüidade foi tirada, e perdoado, o teu pecado” (Is 6.1, 5, 6).

1) Isaías reconheceu que era um pecador e achou-se indigno de estar na presença de Deus. Ao ver o Senhor, ele disse: “Sou uma pessoa impura, indigna de estar diante de Deus! Estou morto! Estou acabado!”

2) Deus purificou o seu coração, tornando-o digno de estar em Sua presença. O anjo do Senhor tocou a boca do profeta. Por que a boca? A boca representa o coração. Jesus disse que a boca fala do que o coração está cheio.

3) Quando Jesus entra em nosso coração, ele nos purifica e nos santifica. Um dos sinais de que o nosso coração está transformado é a transformação da nossa linguagem. Se a nossa boca só fala coisas ruins, negativas, possivelmente nosso coração ainda não foi purificado pelo Senhor Jesus.

4) É o Senhor Jesus quem nos qualifica para amá-lo, adorá-lo e servi-lo. Nós não temos poder para nos auto-qualificar. Não temos capacidade para isto! Somente o Senhor pode nos qualificar para estarmos na sua presença.

Mas se não depende de nós, se não temos esse poder, o que nós temos que fazer? Qual é a nossa parte? O QUE JESUS ESPERA DE VOCÊ? Apenas uma atitude: ABRA A PORTA! Você não precisa fazer mais nada. Apenas abra a porta e Jesus fará o restante! À exemplo daquele funcionário do hotel que estava aguardando o momento de entrar e arrumar o quarto em que eu estava hospedado, Jesus está lá fora aguardando o convite para entrar em sua vida. Enquanto Jesus está do lado de fora batendo à sua porta, “outra voz” contrária está com você do lado de dentro dizendo: “Não abra!”. Pode ser a voz da frustração… pode ser a voz da auto-estima baixa… pode ser a voz da incredulidade… É a voz do “outro”! Ela fará tudo para impedir que você abra a porta do seu coração para Jesus. Enquanto você não abre, Jesus não entra, e enquanto ele não entra, o “outro” não sai!

  • Jesus quer arrumar a sua casa.
  • Jesus quer organizar a sua vida.
  • “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10. 10).

 

Rev. Eurípedes da Conceição

reveuripedes@ig.com.br

Pastor da Igreja Presbiteriana da Tijuca



Entendendo a Festa de Corpus Christi

7 06 2007

*Autor: José Roberto Costanza, professor de História Eclesiástica do Seminário Teológico Presbiteriano Rev. Ashbel Green Simonton.

Corpus Christi é uma expressão latina que significa literalmente o Corpo de Cristo, que pode se referir a duas coisas distintas: ao corpo humano de Jesus e à Igreja, o corpo místico de Cristo.

A festa católica de Corpus Christi está vinculada ao corpo humano de Jesus e é uma espécie de segunda Páscoa. A base bíblica alegada para a festa é a palavra memória, ou festa em memória de Cristo, conforme o Evangelho de Lucas: “E, tomando um pão, tendo dado graças, o partiu e lhes deu, dizendo: Isto é o meu corpo oferecido por vós; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este é o cálice da nova aliança no meu sangue derramado em favor de vós.” (Lc 22.19-20). Segundo o entendimento generalizado das igrejas cristãs, há um significado metafórico do texto.

Nos 300 primeiros anos da Igreja, a Eucaristia era normalmente ministrada no primeiro dia da semana, o Dia do Senhor (Domingo) (cf. Ap 1.10). Ainda em época muito remota, que não se pode precisar, surgiu a idéia de se comemorar o aniversário da Eucaristia. Esta data comemorativa, certamente, teria que ocorrer na Semana da Páscoa ou Semana Santa. Por inferência bíblica e com base na tradição, a “Última Ceia” havia acontecido no quinto dia da semana (quinta-feira). Mas, o problema de datas tornou-se sério, pois a igreja estava se expandindo em uma sociedade romana, cujo calendário era diferente do judaico. Assim, qual seria o dia inicial da Semana Santa? A ressurreição do Senhor e o Pentecostes haviam caído no primeiro dia da semana (Domingo), mas a Páscoa judaica continuava a ocorrer no dia 14 de Nisã, primeiro mês sagrado dos Judeus (cf. Ex 12.6), ou seja, em qualquer dia da semana.

Estava tudo muito confuso quando, no ano 325, em Nicéia, entre outras coisas, ficou decidido que a Páscoa Cristã sempre cairia no domingo, fechando a Semana Santa. Era, inicialmente, uma festa alegre, pois comemorava a ressurreição de Jesus. A ressurreição do Mestre empolgava a jovem comunidade cristã, e havia um certo sentimento coletivo de ânsia pela própria ressurreição.

No contexto da Semana Santa, além do Domingo de Páscoa, ficou destacada a quinta-feira que antecedia a Páscoa, a Quinta-Feira Santa, em razão da última ceia de Jesus. Nessa data especial, passou-se a comemorar a Festa da Eucaristia. Durante cerca de 300 anos, esse foi o entendimento da Igreja Cristã, que, embora una, estava dividida em duas grandes áreas de influência geográfica: A Igreja Grega ou Oriental, liderada pelo Patriarca de Constantinopla; e a Igreja Romana ou Latina, chefiada pelo bispo de Roma, depois chamado Papa.

Em face da oficialização da Igreja no Império Romano, por influência pagã, começaram a surgir crenças e dogmas, que passaram a ser doutrina da Igreja. Um desses dogmas foi a convicção de que a morte de Cristo era mais importante que sua Ressurreição. Logo, havia a necessidade de se colocar Jesus de novo na cruz, de crucificá-lo novamente, e assim surgiu o crucifixo.

Para que o sentimento de culpa e não de regozijo estivesse presente na Páscoa, durante a Quaresma, ou seja, os quarenta dias que antecedem a Páscoa, a palavra de ordem passou a ser: luto, tristeza, contrição, vergonha e dor. “Mea Culpa, Mea Maxima Culpa (minha culpa, minha imensa culpa)”, foi a fórmula introduzida na missa, como conseqüência e para justificar a nova postura litúrgica católica. Não havia clima para se festejar imediatamente após a morte de alguém, mesmo que seja sua ressurreição. O luto era mais importante.

As igrejas se tornaram túmulos de Cristo e precisavam ser grandes, não para caber muita gente, mas porque ali estava enterrado o Rei dos Reis, o Senhor dos Senhores. No centro das principais cidades, em algumas igrejas mais antigas, no final da nave (corredor central), no lado esquerdo, pouco antes do Santuário, há um nicho com o corpo de Cristo. É só verificar.

Por outro lado, a partir do século VII, começou a surgir a idéia de que, na Eucaristia, havia uma presença real de Cristo no pão, ou seja, o pão se transformava no corpo de Cristo. Essa doutrina foi aprimorada pelos teólogos escolásticos, entre os séculos XIII a XV, e recebeu o nome de Transubstanciação.

A verdadeira motivação que levou o papa Urbano IV a aprovar, em 1264, uma bula papal instituindo a Festa de Corpus Christi, tem sido matéria de discussão entre os historiadores.

A Enciclopédia Britânica fica com a tese de que a motivação foi a doutrina da transubstanciação. A origem teria sido uma festa realizada, em 1246, por ordem do bispo de Liège, na França, em homenagem à presença real de Cristo na Eucaristia. A Enciclopédia Católica, por outro lado, defende, pura e simplesmente, a idéia da reativação da Festa da Eucaristia primitiva, em outra data.

Motivos à parte, Urbano IV estabeleceu que na quinta-feira, após o Domingo da Santíssima Trindade (que se segue ao Pentecostes), ou seja, 8 semanas depois da Páscoa, seria comemorado o “Corpus Christi”, a festa da Eucaristia.

Infelizmente, vivemos em um país que, embora desfrute de liberdade religiosa, está associado à Igreja Católica, que é uma espécie de Igreja Oficial, sem o rótulo de oficial. É possível que essa situação perdure por tempo indeterminado. Cabe às lideranças evangélicas um firme posicionamento sobre o assunto, de modo que festas específicas de um grupo religioso, mesmo que majoritário, não sejam impostas à totalidade do povo brasileiro.