Coisas Novas e Velhas

27 07 2007

Um ensaio homilético sobre Mateus 13.51-52

INTRODUÇÃO
O seguidor de Jesus é um escriba versado no Reino dos céus. É um aluno na escola de Jesus, instruído a respeito das coisas de Deus. Ele tem um depósito, um tesouro, constituído dos ensinos do Senhor – a Palavra de Deus.

Ele deve tirar do seu depósito para dar a outros. Deve ensinar, transmitir o conhecimento recebido; tem um tesouro para partilhar com as pessoas, não para  guardar exclusiva e egoisticamente para si. É como um pai de família hospitaleiro, sempre pronto a abrir sua despensa para suprir as necessidades de outros.

Ele só pode tirar porque antes recebeu; só pode ensinar porque antes aprendeu. Afinal, só se pode dar aquilo que se tem, assim como não se tira leite de pedra. Nem Deus pode fazê-lo; ele no deserto tirou água da pedra, pois a água ali estava; mas leite não poderia tirar – porque “a graça supõe a natureza”. Sempre digo isso a meus alunos: Quem não estuda e não se prepara não tem como ser ajudado, nem pelo Espírito Santo. Por isso, o discípulo é um eterno aluno de Jesus, para poder ser um mestre do próximo, para ter sempre o que passar adiante.

E quanto mais ele dá, mais tem; seu depósito cresce, seu tesouro aumenta à medida que se reparte. Lógica paradoxal do Reino de Deus: ganha-se à medida que se dá; quanto mais alguém compartilha o que tem, mais se enriquece.

Que ensina esse escriba? Coisas novas e velhas. É disso que nos alimentamos, é disso que damos. Pois esta é uma necessidade humana, uma lei da vida:

I) PRECISAMOS DE COISAS NOVAS E VELHAS, DE EQUILÍBRIO ENTRE NOVIDADE E TRADIÇÃO
Ambas estão guardadas no mesmo baú, fazem parte do nosso tesouro. Devemos cuidar de preservar as coisas velhas: elas são o fundamento sobre o qual edificamos nossa vida. Ninguém pode viver sem raízes, sem tradições, sem passado. Nossas  tradições são o critério e a base para julgar e criar o novo. Pois há novidades que não prestam, e precisam ser rejeitadas. Por outro lado, o novo que vale a pena sempre deriva do velho – como o ensino de Jesus, do de Moisés e do dos profetas e sábios do AT; como a Igreja, de Israel. De fato, nem o ensino de Jesus nem a Igreja são novidades absolutas, mas realidades ancoradas na tradição, alicerçadas em toda uma história mais que milenar da relação de Deus com seu povo, da percepção da revelação de seu caráter e vontade que não mudam, estando ambos em linha de continuidade, e não em ruptura, com o passado.

Ao mesmo tempo, devemos cuidar de produzir coisas novas: desenvolver o que já temos, crescer, conhecer sempre mais e melhor nossa fé, sem medo nem preguiça de aprender, de mudar, de ir além, de encarar as novas questões que o mundo e a vida sempre colocam diante de nós a cada passo, de atualizar as tradições do passado para que continuem a falar de maneira relevante a novos tempos e situações.

Querer ficar só com o passado é o caminho mais rápido para o envelhecimento e a morte. Querer só olhar para a frente é viver sem realizar nem deixar nada de concreto.

Precisamos estar sempre em movimento para avançar. Como dizem os roqueiros: pedra rolando não cria limo. Mas sem esquecer que é a tradição que constitui a base, o fundamento indispensável para uma vida de segurança.

II) POR QUÊ? PORQUE A VIDA É FEITA DE ALTERNÂNCIAS, TEM UM RITMO QUE DEVE SER CUIDADOSAMENTE OBSERVADO
Somos feitos de mudança e permanência, de ruptura e continuidade. Há no ser humano um desejo de mudança, de novidade, ao lado de uma necessidade de estabilidade, de continuidade, de permanência. Mas a mudança é também necessária, assim como a estabilidade deve ser igualmente desejada.

Precisamos da rotina. Já parou para pensar nisso, em como a rotina é importante? Que seria de nós sem rotinas? Já imaginou ter de sempre aprender a fazer tudo de novo, a cada dia? A vida seria impossível, sem a rotina, sem os hábitos, que são básicos para não perdermos tempo. Mas a vida não pode ser só a repetição de hábitos, a reprodução de rotinas, se não queremos ficar estagnados.

Assim Deus nos criou: com amor pela mudança e com amor pela permanência; somos capazes de ter prazer em ambas as situações, e o amor por elas deve permanecer em equilíbrio. O ritmo é exatamente a união das duas coisas.

Exemplo: as quatro estações do ano, sempre mudando e sempre as mesmas. Precisamos das quatro, e as experimentamos sempre como uma novidade, mesmo sendo elas sempre recorrentes desde que o mundo é mundo. Outro exemplo: as festas do calendário cristão. Celebramos Páscoa, Natal, Pentecostes sempre de novo, e sempre com uma alegria nova. Também nossos aniversários de nascimento, de casamento e os de pessoas queridas comemoramos da mesma forma.

Não poderíamos viver sem dias especiais – morreríamos de monotonia; nem numa festa contínua – perderíamos o senso da realidade. Precisamos de alternância: coisas novas e velhas, especiais e comuns, passadas e futuras.

Assim, não ficar preso ao passado nem fechado ao novo; não ter obsessão pela novidade nem ânsia pelo futuro. Cuidado com os modismos, sempre passageiros, sem consistência. E com a ânsia pelo futuro, que é inteiramente inútil e desnecessária. Não podemos acrescentar nada a nossa vida por causa da nossa ansiedade (Mt 6.27), e o futuro vem, não para os heróis que lutam por alcançá-lo, mas para todos da mesma forma, à razão de 60 minutos por hora, sejamos nós quem formos, façamos nós o que fizermos. Precisamos é viver o presente com equilíbrio, observando o ritmo da vida.

III) COMO OBTER ESSE EQUILÍBRIO? MANTENDO-NOS LONGE DOS EXCESSOS, DOS EXTREMOS
Como diz o provérbio, “a virtude está no meio”. Por exemplo: devemos ser corajosos – não covardes nem audaciosos; ter fé – não ser descrentes nem fanáticos; ser realistas, não pessimistas nem otimistas. A coragem é o meio-termo virtuoso entre a covardia e a audácia, assim como a fé o é entre a descrença e o fanatismo, e o realismo, entre o pessimismo e o otimismo.

Pois o covarde fica paralisado pelo medo, ao passo que o audaz corre riscos estúpidos. O corajoso sabe o valor do medo e o do risco, e a hora certa de temer e a de arriscar. O descrente vive fechado na angústia da insegurança e da desesperança; o fanático, fechado nas certezas absolutas que alienam da realidade marcada pela dúvida e tornam as pessoas intolerantes e até cruéis – porque supostas donas da verdade. O crente sabe confiar e esperar, assim como conviver com suas dúvidas e ser compreensivo e respeitoso para com as opiniões diferentes das suas. O pessimista vive de amargas desilusões – nada nem ninguém presta. O otimista, de ilusões infundadas de que tudo venha a dar certo e acabar bem, independentemente do que se faça. O realista tem a noção exata das coisas, da miséria e da grandeza do ser humano, de seus limites e possibilidades. Sabe então o que esperar das pessoas, enquanto o pessimista nada espera e o otimista espera demais, ficando ambos decepcionados.

O equilíbrio é difícil, mas necessário – só ele satisfaz. Não adianta “ter aquela velha opinião formada sobre tudo”; mas também não resolve ser “metamorfose ambulante”. Não podemos viver só do novo, nem só do antigo. Precisamos saber avaliar e aproveitar o melhor do velho e do novo.

Assim, não se deve ter horror ao novo, nem horror à mesma velha coisa de sempre. O horror ao novo leva à prisão ao passado, à atitude nostálgica, ao saudosismo, à decadência, à esclerose, à morte intelectual e espiritual. O horror à mesma velha coisa de sempre é, no dizer de C. S. Lewis, “uma fonte interminável de heresias na religião, loucura nas deliberações, infidelidade no casamento e inconstância na amizade” (Cartas do diabo ao seu aprendiz).

Então, cabe reconhecer o valor da história, do antigo, do passado – afinal, não há vida sem passado. De fato, tudo que realmente possuímos é apenas o que já passou, o que já experimentamos; assim contamos nossa idade, pelos anos que já se foram. Pois somos o que vivemos um dia, e isso nada nem ninguém pode roubar de nós. E mesmo que nosso passado tenha sido terrível, ele permanece nosso e útil como lição, e por isso não deve ser desprezado nem esquecido.

Mas nossa vida não é só nossa história, é também nossa esperança. Assim, não devemos ter medo nem ânsia pelo futuro, pelo novo – o amanhã trará os seus cuidados, bastando a cada dia a sua própria dificuldade (e aqui é preciso corrigir uma interpretação errada do texto de Mt 6.34: a vida é dura, não má); e virá, independentemente de nossa vontade ou esforço para impedi-lo ou apressá-lo, a seu tempo e para todos. Importa estar aberto para recebê-lo e vivê-lo à luz da nossa história e da nossa esperança, um dia de cada vez, com a sabedoria de um discípulo do Reino dos céus.

CONCLUSÃO
Somos escribas versados no Reino dos céus. E a Palavra de Deus (AT e NT) é esse baú de coisas novas e velhas, essa despensa inesgotável, esse tesouro de onde tiramos para enriquecer a outros, e para viver uma vida com sentido, capaz de encontrar para si e oferecer aos outros respostas adequadas às perguntas de sempre e também às novas que surgem com o passar do tempo. Queremos ser Igreja relevante no século XXI? Então, precisamos estar atentos aos novos problemas que vão sendo levantados, sem esquecer de nossa caminhada de dois milênios e das respostas de validade eterna que já encontramos. Valorizemos nosso tesouro, nosso depósito.

Consciente disso, aproprie-se da PdD – faça dela o seu depósito, desenvolva uma relação afetiva e pessoal com ela, trate-a com familiaridade. Ame sua herança de fé.

Leia-a e estude-a constantemente – seja um bem-aventurado, alguém que, como diz o salmista, tem nela o seu prazer, e nela medita de dia e de noite. Conheça-a por inteiro, para transmitir seu ensino na sua inteireza, com criatividade e fidelidade.

A tradição é para ser respeitada, amada, transmitida; nela se baseia o novo, para não ser mera invencionice. Mas a tradição é também para ser atualizada, para falar ao presente, como realidade viva, dinâmica, crescente que é.

Assim, não é para repetir idéias mecanicamente, nem para dar livre curso à imaginação e à fantasia. É para levar a outros uma palavra contextualizada, apropriada, e coerente com a revelação, nela bem fundamentada.

Tradição sem renovação e atualização – é letra morta, incapaz de falar ao presente; perde seu sentido.

Novidade sem conservação e preservação da tradição – é modismo passageiro, fútil e descartável, sem nenhum fundamento; não vale a pena.

Deus nos conceda um viver com ritmo e com equilíbrio entre as coisas novas e as velhas.

Rev. Paulo Severino da Silva Filho
O autor é pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, professor do Seminário Simonton, onde exerce as funções de coordenador do Departamento de Teologia Exegética e do Curso de Bacharel em Teologia, e doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.



O Sofrimento Como Desafio

20 07 2007

Segundo a Bíblia, o sofrimento não faz parte do mundo como Deus o idealizou. Nem faz parte do mundo futuro que um dia será. Mas o sofrimento é uma realidade da vida neste mundo presente. Difícil de compreender. Difícil de aceitar. Mas inegável. Universal. Inescapável. Diz o poeta Francisco Otaviano, num poema intitulado Ilusões da vida: “Quem passou pela vida em branca nuvem, / E em plácido repouso adormeceu, / Quem não sentiu o frio da desgraça, / Quem passou pela vida e não sofreu, / Foi espectro de homem, não foi homem, / Só passou pela vida, não viveu”.

Não nos é dada escolha, se vamos sofrer ou não. Mas cabe-nos escolher como vamos sofrer. E é isto que faz toda a diferença entre um cristão e um não-cristão. Portanto, como nós, cristãos, devemos encarar o sofrimento?

  1. O sofrimento é um desafio para a nossa fé. Isto porque a Bíblia e a teologia cristã ensinam que Deus é bom e todo-poderoso, coisas que o sofrimento parece contradizer. Afirmar que se crê quando tudo vai bem é muito fácil, mas, e quando os ventos se fazem contrários, as nuvens são escuras, e a tempestade dá com força sobre o barco da nossa vida? E quando andamos pelo vale da sombra da morte? E quando homens maus se levantam contra nós? E quando a dor se torna insportável? Somos desafiados, pelo sofrimento, a manter a nossa fé, a despeito das circunstâncias.
  2. O sofrimento é um desafio para a nossa esperança. Pois mais difícil (e importante) do que crer é permanecer firme na fé. Sobretudo quando o Deus bom e todo-poderoso que confessamos parece calar-se e tardar a intervir para nos livrar de nossas situações de sofrimento e cumprir suas promessas, Ele, que tem seu tempo e modo próprios de agir. Somos desafiados, pelo sofrimento, a perseverar até o fim, esperando até, se preciso for, contra toda esperança.
  3. O sofrimento é um desafio para o nosso amor. Amor pelos que sofrem. Amor pelos que (nos) fazem sofrer. Amor pelo Deus que permite que o sofrimento nos atinja, mas fazendo com que, de maneira misteriosa, todas as coisas concorram para o bem daqueles que o amam. A doença incurável que afeta nossos queridos, a perseguição injusta movida por inimigos, o silêncio e a demora divinos em nos responder são tudo oportunidades de praticarmos o amor e nos tornarmos, assim, pessoas melhores.

Rev. Dr. Paulo Severino da Silva Filho
Professor de Introdução e Análise do Antigo Testamento, Exegese e Teologia do Antigo Testamento do Seminário Teológico Presbiteriano Rev. Ashbel Green Simonton. É também coordenador do Curso de Teologia e do Departamento de Teologia Exegética.



A vida Plena Acima da Mediocridade

12 07 2007

A vida que se torna plena na história é a que foge de qualquer traço de mediocridade. Quem quer que tenha em vista essa plenitude tem de experimentar uma abertura de mente, a fim de perceber a realidade. Precisa exercitar a obediência como ação dinâmica para uma nova realidade. Uma obediência que seja caracterizada por uma vida de serviço, de engajamento, como estado natural do discipulado cristão, segundo ensina o Novo Testamento. E, a palavra neotestamentária tem como paradigma central a palavra de Jesus Cristo. Jesus Cristo é o Deus que se humanizou, ou seja, fazendo-se um dos membros da raça humana. E, deste modo, um discipulado que seja marcado por obediência possa se constituir uma efetividade da vida da pessoa humana, tornando-se uma vida plena, é profundamente necessária a experiência cúltica. O culto é expressão vital. É no culto que se reconhece a vontade do Criador, no momento em que há o envolvimento pela Palavra e pelos Sacramentos. Todas as pessoas são chamadas por Deus para terem essa experiência, sem a qual a vida torna-se desprovida de sentido.

Como se pode definir a mediocridade? Mediocridade é qualidade de medíocre; é a falta de mérito. Mediocrizar-se é não desejar a vida plena que sem fé se projeta no mundo, não demonstrando o verdadeiro sentido do que é em si a existência. A vida é dom concedido pelo Criador. E, uma pessoa medíocre, experimenta uma vida sem relevo, ordinária, vulgar e mediana. Não foi para isso que Deus deu a vida como dom.

Uma vida plena é uma vida de representatividade. O que significa ser um representante? Primeiro é preciso tomar consciência da excelência de Jesus Cristo. Ele representa Deus entre os homens e o homem diante de Deus. Desta forma é também cada um dos seus discípulos, ou dos seus apóstolos. É importante saber que representa e não substitui. Todos os cristãos são representantes de Cristo (2 Coríntios 5.18-20). A vida do discípulo é como a de seu Mestre (Mateus 10.24-25). O representante não ocupa o lugar do ausente, mas unicamente o faz por delegação.

Existem três ordens sobre a representatividade, que têm de ser sempre lembradas para quem deseja viver uma vida engajada na história, fugindo de toda e qualquer sorte de mediocridade:

A Primeira ordem: Supõe um tipo particular de presença
Não quer dizer uma presença alternativa, mas uma presença satisfeita em si mesma. Logo, a ausência é rigorosamente o seu contrário. É uma presença que remete a uma ausência no estado de presença. A representação não existe senão no ato de significar que um outro se faz representar. Porém, ninguém poderá se pôr no seu lugar. A própria presença está na representação. Ela impõe uma plenitude tal, que não pode significar um passado a evocar um futuro, mas que se satisfaz de forma positiva em ser para o que está adiante. Assim, se pode perceber uma instauração não-definitiva. Na representação a presença é oferta, dada aqui e agora, e portanto, ela se abre para um futuro que retoma seu discurso. Ela requer uma história que persegue sua obra, e portanto, ela não é pensada como provisória.

Segunda ordem: A historicidade da presença
Esta representa a sua própria consistência. Move-se unicamente sob o signo de uma realidade, que ainda uma vez, se move na instauração de uma presença que plenifica a realidade e que se concretiza como presença na história, envolvendo a cultura no aspecto social, tanto de ontem como de hoje. Destarte, sustenta razões que se inserem profundamente no jogo da digna representação altamente diferenciada.

Terceira ordem: O tipo de relação que supõe o esquema da representatividade
Que relação se indica entre o homem e Deus, enquanto se trata de representatividade? É preciso observar que a fé vive no regime de ausência. Entre Deus e o homem existe a separação. Há, portanto, uma assimetria que deve ser respeitada. Deus é Deus, enquanto o homem é homem. O homem não é Deus; e Deus não pode ser reduzido apenas a ser homem, pois quando se pensa em Deus, se pensa também em sua essência ilimitada. Assim, falar de representatividade é manter firmemente um regime de separação, e esboçar a experiência apenas sobre uma base de relação, especificamente. Essa distância se joga finalmente como condição de uma relação que é verdadeira. É uma representatividade que interpela a uma legítima responsabilidade.

Essa representatividade torna a vida humana plena em sua trajetória, e aponta para uma existência rica e com sentido na história. É a vida que foi justificada por Deus em Jesus Cristo que participa de uma nova configuração. Configuração de uma justificação gratuita, que o homem nada pode fazer para obtê-la. É uma justificação que tem ligação com uma história da salvação. Salvação que está inscrita mesmo na criação, concretizada por Deus, através de Jesus Cristo. Uma justificação que apresenta profundamente a temática da verdade acerca de Deus crucificado. Esse é o estado da nova criação, como manifestação da graça e do perdão de Deus.

A justificação que qualifica a vida plena é vista da seguinte maneira: como a vitória de Deus sobre o mundo; como implicação num combate e num julgamento; que mantém a manifestação do senhorio de Deus; que antecipa o dom escatológico pleno e total; que participa do estabelecimento da justiça de Deus sobre a terra. Destarte, se observa uma doutrina que se lança no coração de uma perspectiva global, aberta sobre o mundo e sobre a história. A justificação aparece, finalmente, como critério que permite se ler e tomar em consideração a nossa história.

Portanto, vida plena é vida que foi justificada por Deus em Jesus Cristo. É vida que participa, que representa Deus e não o substitui. É vida que se engaja na história com todas as suas peculiaridades. Assim, longe está de configurar-se como vida medíocre a pessoa que foi justificada pela ação dinâmica do Justificador, que é Deus em Jesus Cristo na força do seu Espírito.

Autor: Rev. Nelson Célio de Mesquita Rocha (Doutor em Teologia Sistemática pela Puc-Rj e professor do Seminário Simonton).



Realizando Valores

5 07 2007

Viver é realizar valores. São os valores que dão sentido à vida. Quanto mais realizamos valores, mais sentido tem a nossa vida, mais felizes nós somos. Podemos dizer, como pessoas crentes, que Deus nos criou para realizar valores.

Não estamos falando aqui de bens materiais. Não é ao reino do ter que nos referimos. Porque interessa-nos a possibilidade de viver uma vida com sentido e feliz, e se o sentido da vida e a felicidade só pudessem ser alcançados pelas pessoas que têm bens materiais, muito pouca gente poderia viver vida com sentido e ser feliz. É certo que não devemos desprezar os bens materiais, pois eles nos trazem conforto, dão liberdade, possibilitam conhecimentos, permitem realizações pessoais e serviço ao próximo; mas precisamos colocá-los em seu devido lugar na ordem de importância das coisas na vida.

Falamos aqui de valores que poderíamos chamar de espirituais, ou superiores – valores pertencentes ao reino do ser. Portanto, acessíveis a toda e qualquer pessoa, independentemente de sua condição econômico-financeira, do lugar que ocupa na sociedade, da dificuldade por que esteja passando, ou de qualquer outro fator.

Viktor Frankl tratou da questão dos valores. Ele, judeu austríaco, médico psiquiatra, foi um dos gigantes do século vinte, um homem que conheceu os horrores dos campos de concentração nazistas e sobreviveu a eles, e deixou uma grande obra na área da psicologia, sendo o fundador da Logoterapia, a terapia do sentido da vida. Viktor Frankl foi um campeão da liberdade, que nada nem ninguém pode roubar da pessoa humana – nem os campos de concentração. Segundo Frankl, há três categorias de valores: vivenciais, criativos, e de atitude.

Valores vivenciais são aqueles de poderíamos chamar de contemplação, de desfrute das coisas boas e belas da vida. Apreciar um pôr-de-sol, uma paisagem, uma música, uma obra de arte, uma refeição, uma conversa, um perfume, um brinquedo, um jogo são maneiras de realizar valores vivenciais. Sua realização independe de qualquer atividade nossa. Desconsiderá-los é viver uma vida menor. A vida também vale a pena quando simplesmente se frui um determinado momento, quando se faz uma determinada experiência estética, quando a gente se deixa admirar e encantar por algo que vê ou escuta.

Valores criativos são aqueles do agir. Quando fazemos alguma coisa útil aos outros, quando realizamos bem nossas tarefas, não importando seu tamanho, realizamos valores criativos. A esse respeito, Frankl diz que o importante não é exatamente o que se faz, mas como se faz. Uma pessoa que cumpre bem seus deveres familiares e profissionais, ainda que pareça pequena, é bem maior e mais importante do que o “grande” homem que toma suas decisões e age sem a devida consciência e seriedade.

Valores de atitude são aqueles que realizamos quando nada mais nos resta, quando estamos diante de uma situação-limite, imutável, que enfrentamos com coragem: um campo de concentração, uma doença incurável, um acidente com seqüelas, a dor ou a morte de um ente querido, um fracasso profissional, um sofrimento inexplicável qualquer. É a maior de todas as oportunidades de realização de valores. Aí se verifica que a vida humana sempre pode fazer sentido, sempre nos deixa uma possibilidade que seja, até o último instante. Enquanto temos consciência, podemos responder às situações, quaisquer que sejam elas.

Realizar os três tipos de valores é o que faz uma vida verdadeiramente humana, plena de sentido. É imperativo realizá-los. E sempre possível. Se não o fosse, deixaríamos de ser humanos.

Viktor Frankl comprovou a veracidade de sua categorização dos valores em sua própria vida, e nas vidas de tantos de atendeu e ajudou.

Olhando para a vida de Jesus, vamos ver que ele também realizou esses mesmos valores em sua existência. Ele, o homem perfeito, exemplar, nosso Senhor e Salvador, e também nosso modelo para que sejamos plenamente humanos, como Deus quer.

JESUS E OS VALORES VIVENCIAIS

Jesus realizou valores vivenciais. Gostava das coisas boas e belas da vida. Sabia apreciá-las e desfrutá-las.

Apreciador da natureza e da cultura, delas tirou ensinamentos para si e para os outros, para nós que o seguimos hoje. Quantas de suas histórias e de seus ditos não partem da observação do funcionamento do mundo natural ou das coisas que caracterizam o mundo humano! Neles ele fala de pássaros, de flores, de árvores, do sol, da chuva, de semente, do crescimento das plantas, de ovelhas, de lobos, de serpentes, de pombas, de peixes, de pães, de água, de vinho, de dinheiro, de amizade, de trabalho, de casamento, de festas, de banquete.

Amigo dos homens e mulheres, estava em suas casas, em suas festas, em suas dores. Comia e bebia com eles, sem falsos pudores, sem preconceitos, sem se envergonhar da companhia de ninguém, sem se importar com o que os outros iriam dizer. Afinal, as pessoas que gostam de falar mal das outras falam mesmo, com ou sem motivo. Então que falem porque fazemos coisas boas.

Jesus era um homem alegre, que ria. Chorava às vezes, como registra o Evangelho, mas podemos entender esses momentos como exceção. Jesus não era triste, nem asceta, nem fechado aos bens do mundo e da vida.

Ele vivia da graça que liberta, que nos faz senhores das coisas e as põe à nossa disposição para que delas aproveitemos com medida e moderação, mas com gozo e abundância, e sobretudo com gratidão.

JESUS E OS VALORES CRIATIVOS

Jesus era um trabalhador, um artesão. Carpinteiro. Não um vagabundo nem um preguiçoso. Não via o trabalho como incomodidade temporária a ser superada o mais rápido possível, mas como bênção de Deus para o ser humano e fonte de realizações pessoais e para os outros.

Jesus era um estudioso. Pôde saber o que sabia e ensinar o que ensinou porque estudou e aprendeu. Seu conhecimento não era infuso, mas fruto de esforço, de leitura, de meditação, de observação.

Veja suas palavras e ações, seu ensino e suas curas.

Jesus foi o inventor de histórias inesquecíveis, um grande ficcionista, da melhor ficção, aquela que serve como veículo insuperável e inigualável de verdades. Sim, a verdade não está nos jornais, nem na TV. Eles nos contam das realidades factuais: a previsão do tempo, o resultado do futebol, os acidentes, as catástrofes, a violência, a corrupção, coisas de que, de um modo geral, precisamos ter conhecimento. Mas eles também defendem as ideologias e interesses de seus donos, dirigentes e patrocinadores. E por isso manipulam a verdade muitas vezes, distorcendo as coisas, enganando as pessoas. A verdade, no sentido de apreensão e explicação do real, não é usualmente transmitida pelos jornalistas e propagandistas, apesar de todo o poder da mídia e da importância destes profissionais. Ela é conhecida e passada adiante por outras classes de pessoas: os filósofos, os poetas, os escritores, os profetas, os sábios, os santos, entre eles, Jesus.

Jesus curou pessoas – não deixava ninguém sem atendimento, nunca despediu ninguém de mãos vazias. Foi a pessoa para os outros. O servo de todos.

Jesus realizou valores criativos, trabalhando, estudando, ensinando, curando, servindo, em perfeita obediência à vontade do Pai.

JESUS E OS VALORES DE ATITUDE

Esses são os mais importantes. Também na vida de Jesus.

Basta recordar sua paixão, cruz, e morte.

Jesus não desistiu de sua causa. Não tentou fugir, nem encontrar atalhos. Não negociou soluções mais favoráveis. Não negou sua fé e suas obras. Não se vendeu como Judas.
Submeteu-se ao plano de Deus, à vontade do Pai, boa, agradável e perfeita, sempre boa, agradável e perfeita, mesmo quando não a compreendemos e não a queremos aceitar. Assumiu o sofrimento próprio com toda a dignidade. Foi solidário com os sofredores. Amou até o fim.

Só por isso Jesus é o Salvador, e merecedor de nosso respeito, amor e adoração. Só por isso é verdadeiro homem, que assume o que é, o que diz, o que faz. Que não tem medo de outros homens, meros mortais, que só podem fazer eventualmente mal ao corpo, mas não podem atingir a alma, o coração, o cerne da vida. Nem tem medo da morte, que para os que têm esperança em Deus não é o fim, mas a passagem para o Pai, na certeza da ressureição e da vida eterna na plenitude do Reino de Deus que logo vem.

Medo só do único que pode fazer perecer no inferno tanto a alma quanto o corpo. Medo só da covardia, do fugir da luta, do abandono da causa do reino de Deus, o reino dos valores. Que somos chamados a realizar, quando nada mais podemos fazer, por nossa atitude. Como crentes, dizemos: com a coragem da fé, com plena confiança depositada em Deus, que sabe os porquês e os para-quês de todas as coisas que acontecem, e nos dá força para enfrentá-las.

CONCLUSÃO

Cada momento traz consigo o seu dever de realizar valores. Devemos estar atentos para perceber qual o valor de cada hora e prontos para passar de um para o outro, conforme as circunstâncias que encaramos o exigirem de nós.

A mesa do Senhor, posta diante de nós no culto, que nos fala de seu amor por nós, de sua vida, morte e ressurrreição, aponta para esses três valores.

Reunidos em torno dela, somos convidados a experimentar valores vivenciais, recebendo pão e vinho como meios de graça, desfrutando a bênção do Senhor, rica e abundante, que nos sustenta espiritualmente para uma vida com sentido. E o fazemos cheios de gratidão (daí chamarmos este momento de eucaristia, celebração da boa graça de Deus).

Sentados a ela, somos chamados a realizar valores criativos, entregando nossa vida ao serviço do mundo, como fez Jesus, colocando todas as nossas capacidades e disposição para o bem dos outros, em obediência ao Senhor com quem estamos comprometidos inteiramente.

Alimentados dela, somos desafiados a realizar valores de atitude, em meio aos sofrimentos que nos puderem vir pela causa do Senhor, inescapáveis, inevitáveis, impostos pelo mundo hostil aos que querem fazer a vontade de Deus, e também em meio aos que não podemos entender nem explicar, mas que precisam ser assumidos e suportados com valentia e com grandeza, a exemplo de Jesus, sabendo que por meio deles vem o nosso crescimento, o nosso bem, a nossa santificação, a nossa melhora como pessoas. A nossa oportunidade maior de testemunho da graça de Deus e de submissão a sua vontade, com toda a confiança na soberania e na sabedoria de Deus. Que ele nos abençoe sempre, e nos ajude a viver uma vida de realização de valores.

Rev. Dr. Paulo Severino da Silva Filho
Professor de Introdução e Análise do Antigo Testamento, Exegese e Teologia do Antigo Testamento do Seminário Teológico Presbiteriano Rev. Ashbel Green Simonton. É também coordenador do Curso de Teologia e do Departamento de Teologia Exegética.