Coisas Novas e Velhas
27 07 2007Um ensaio homilético sobre Mateus 13.51-52
INTRODUÇÃO
O seguidor de Jesus é um escriba versado no Reino dos céus. É um aluno na escola de Jesus, instruído a respeito das coisas de Deus. Ele tem um depósito, um tesouro, constituído dos ensinos do Senhor – a Palavra de Deus.
Ele deve tirar do seu depósito para dar a outros. Deve ensinar, transmitir o conhecimento recebido; tem um tesouro para partilhar com as pessoas, não para guardar exclusiva e egoisticamente para si. É como um pai de família hospitaleiro, sempre pronto a abrir sua despensa para suprir as necessidades de outros.
Ele só pode tirar porque antes recebeu; só pode ensinar porque antes aprendeu. Afinal, só se pode dar aquilo que se tem, assim como não se tira leite de pedra. Nem Deus pode fazê-lo; ele no deserto tirou água da pedra, pois a água ali estava; mas leite não poderia tirar – porque “a graça supõe a natureza”. Sempre digo isso a meus alunos: Quem não estuda e não se prepara não tem como ser ajudado, nem pelo Espírito Santo. Por isso, o discípulo é um eterno aluno de Jesus, para poder ser um mestre do próximo, para ter sempre o que passar adiante.
E quanto mais ele dá, mais tem; seu depósito cresce, seu tesouro aumenta à medida que se reparte. Lógica paradoxal do Reino de Deus: ganha-se à medida que se dá; quanto mais alguém compartilha o que tem, mais se enriquece.
Que ensina esse escriba? Coisas novas e velhas. É disso que nos alimentamos, é disso que damos. Pois esta é uma necessidade humana, uma lei da vida:
I) PRECISAMOS DE COISAS NOVAS E VELHAS, DE EQUILÍBRIO ENTRE NOVIDADE E TRADIÇÃO
Ambas estão guardadas no mesmo baú, fazem parte do nosso tesouro. Devemos cuidar de preservar as coisas velhas: elas são o fundamento sobre o qual edificamos nossa vida. Ninguém pode viver sem raízes, sem tradições, sem passado. Nossas tradições são o critério e a base para julgar e criar o novo. Pois há novidades que não prestam, e precisam ser rejeitadas. Por outro lado, o novo que vale a pena sempre deriva do velho – como o ensino de Jesus, do de Moisés e do dos profetas e sábios do AT; como a Igreja, de Israel. De fato, nem o ensino de Jesus nem a Igreja são novidades absolutas, mas realidades ancoradas na tradição, alicerçadas em toda uma história mais que milenar da relação de Deus com seu povo, da percepção da revelação de seu caráter e vontade que não mudam, estando ambos em linha de continuidade, e não em ruptura, com o passado.
Ao mesmo tempo, devemos cuidar de produzir coisas novas: desenvolver o que já temos, crescer, conhecer sempre mais e melhor nossa fé, sem medo nem preguiça de aprender, de mudar, de ir além, de encarar as novas questões que o mundo e a vida sempre colocam diante de nós a cada passo, de atualizar as tradições do passado para que continuem a falar de maneira relevante a novos tempos e situações.
Querer ficar só com o passado é o caminho mais rápido para o envelhecimento e a morte. Querer só olhar para a frente é viver sem realizar nem deixar nada de concreto.
Precisamos estar sempre em movimento para avançar. Como dizem os roqueiros: pedra rolando não cria limo. Mas sem esquecer que é a tradição que constitui a base, o fundamento indispensável para uma vida de segurança.
II) POR QUÊ? PORQUE A VIDA É FEITA DE ALTERNÂNCIAS, TEM UM RITMO QUE DEVE SER CUIDADOSAMENTE OBSERVADO
Somos feitos de mudança e permanência, de ruptura e continuidade. Há no ser humano um desejo de mudança, de novidade, ao lado de uma necessidade de estabilidade, de continuidade, de permanência. Mas a mudança é também necessária, assim como a estabilidade deve ser igualmente desejada.
Precisamos da rotina. Já parou para pensar nisso, em como a rotina é importante? Que seria de nós sem rotinas? Já imaginou ter de sempre aprender a fazer tudo de novo, a cada dia? A vida seria impossível, sem a rotina, sem os hábitos, que são básicos para não perdermos tempo. Mas a vida não pode ser só a repetição de hábitos, a reprodução de rotinas, se não queremos ficar estagnados.
Assim Deus nos criou: com amor pela mudança e com amor pela permanência; somos capazes de ter prazer em ambas as situações, e o amor por elas deve permanecer em equilíbrio. O ritmo é exatamente a união das duas coisas.
Exemplo: as quatro estações do ano, sempre mudando e sempre as mesmas. Precisamos das quatro, e as experimentamos sempre como uma novidade, mesmo sendo elas sempre recorrentes desde que o mundo é mundo. Outro exemplo: as festas do calendário cristão. Celebramos Páscoa, Natal, Pentecostes sempre de novo, e sempre com uma alegria nova. Também nossos aniversários de nascimento, de casamento e os de pessoas queridas comemoramos da mesma forma.
Não poderíamos viver sem dias especiais – morreríamos de monotonia; nem numa festa contínua – perderíamos o senso da realidade. Precisamos de alternância: coisas novas e velhas, especiais e comuns, passadas e futuras.
Assim, não ficar preso ao passado nem fechado ao novo; não ter obsessão pela novidade nem ânsia pelo futuro. Cuidado com os modismos, sempre passageiros, sem consistência. E com a ânsia pelo futuro, que é inteiramente inútil e desnecessária. Não podemos acrescentar nada a nossa vida por causa da nossa ansiedade (Mt 6.27), e o futuro vem, não para os heróis que lutam por alcançá-lo, mas para todos da mesma forma, à razão de 60 minutos por hora, sejamos nós quem formos, façamos nós o que fizermos. Precisamos é viver o presente com equilíbrio, observando o ritmo da vida.
III) COMO OBTER ESSE EQUILÍBRIO? MANTENDO-NOS LONGE DOS EXCESSOS, DOS EXTREMOS
Como diz o provérbio, “a virtude está no meio”. Por exemplo: devemos ser corajosos – não covardes nem audaciosos; ter fé – não ser descrentes nem fanáticos; ser realistas, não pessimistas nem otimistas. A coragem é o meio-termo virtuoso entre a covardia e a audácia, assim como a fé o é entre a descrença e o fanatismo, e o realismo, entre o pessimismo e o otimismo.
Pois o covarde fica paralisado pelo medo, ao passo que o audaz corre riscos estúpidos. O corajoso sabe o valor do medo e o do risco, e a hora certa de temer e a de arriscar. O descrente vive fechado na angústia da insegurança e da desesperança; o fanático, fechado nas certezas absolutas que alienam da realidade marcada pela dúvida e tornam as pessoas intolerantes e até cruéis – porque supostas donas da verdade. O crente sabe confiar e esperar, assim como conviver com suas dúvidas e ser compreensivo e respeitoso para com as opiniões diferentes das suas. O pessimista vive de amargas desilusões – nada nem ninguém presta. O otimista, de ilusões infundadas de que tudo venha a dar certo e acabar bem, independentemente do que se faça. O realista tem a noção exata das coisas, da miséria e da grandeza do ser humano, de seus limites e possibilidades. Sabe então o que esperar das pessoas, enquanto o pessimista nada espera e o otimista espera demais, ficando ambos decepcionados.
O equilíbrio é difícil, mas necessário – só ele satisfaz. Não adianta “ter aquela velha opinião formada sobre tudo”; mas também não resolve ser “metamorfose ambulante”. Não podemos viver só do novo, nem só do antigo. Precisamos saber avaliar e aproveitar o melhor do velho e do novo.
Assim, não se deve ter horror ao novo, nem horror à mesma velha coisa de sempre. O horror ao novo leva à prisão ao passado, à atitude nostálgica, ao saudosismo, à decadência, à esclerose, à morte intelectual e espiritual. O horror à mesma velha coisa de sempre é, no dizer de C. S. Lewis, “uma fonte interminável de heresias na religião, loucura nas deliberações, infidelidade no casamento e inconstância na amizade” (Cartas do diabo ao seu aprendiz).
Então, cabe reconhecer o valor da história, do antigo, do passado – afinal, não há vida sem passado. De fato, tudo que realmente possuímos é apenas o que já passou, o que já experimentamos; assim contamos nossa idade, pelos anos que já se foram. Pois somos o que vivemos um dia, e isso nada nem ninguém pode roubar de nós. E mesmo que nosso passado tenha sido terrível, ele permanece nosso e útil como lição, e por isso não deve ser desprezado nem esquecido.
Mas nossa vida não é só nossa história, é também nossa esperança. Assim, não devemos ter medo nem ânsia pelo futuro, pelo novo – o amanhã trará os seus cuidados, bastando a cada dia a sua própria dificuldade (e aqui é preciso corrigir uma interpretação errada do texto de Mt 6.34: a vida é dura, não má); e virá, independentemente de nossa vontade ou esforço para impedi-lo ou apressá-lo, a seu tempo e para todos. Importa estar aberto para recebê-lo e vivê-lo à luz da nossa história e da nossa esperança, um dia de cada vez, com a sabedoria de um discípulo do Reino dos céus.
CONCLUSÃO
Somos escribas versados no Reino dos céus. E a Palavra de Deus (AT e NT) é esse baú de coisas novas e velhas, essa despensa inesgotável, esse tesouro de onde tiramos para enriquecer a outros, e para viver uma vida com sentido, capaz de encontrar para si e oferecer aos outros respostas adequadas às perguntas de sempre e também às novas que surgem com o passar do tempo. Queremos ser Igreja relevante no século XXI? Então, precisamos estar atentos aos novos problemas que vão sendo levantados, sem esquecer de nossa caminhada de dois milênios e das respostas de validade eterna que já encontramos. Valorizemos nosso tesouro, nosso depósito.
Consciente disso, aproprie-se da PdD – faça dela o seu depósito, desenvolva uma relação afetiva e pessoal com ela, trate-a com familiaridade. Ame sua herança de fé.
Leia-a e estude-a constantemente – seja um bem-aventurado, alguém que, como diz o salmista, tem nela o seu prazer, e nela medita de dia e de noite. Conheça-a por inteiro, para transmitir seu ensino na sua inteireza, com criatividade e fidelidade.
A tradição é para ser respeitada, amada, transmitida; nela se baseia o novo, para não ser mera invencionice. Mas a tradição é também para ser atualizada, para falar ao presente, como realidade viva, dinâmica, crescente que é.
Assim, não é para repetir idéias mecanicamente, nem para dar livre curso à imaginação e à fantasia. É para levar a outros uma palavra contextualizada, apropriada, e coerente com a revelação, nela bem fundamentada.
Tradição sem renovação e atualização – é letra morta, incapaz de falar ao presente; perde seu sentido.
Novidade sem conservação e preservação da tradição – é modismo passageiro, fútil e descartável, sem nenhum fundamento; não vale a pena.
Deus nos conceda um viver com ritmo e com equilíbrio entre as coisas novas e as velhas.
Rev. Paulo Severino da Silva Filho
O autor é pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, professor do Seminário Simonton, onde exerce as funções de coordenador do Departamento de Teologia Exegética e do Curso de Bacharel em Teologia, e doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.
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Viver é realizar valores. São os valores que dão sentido à vida. Quanto mais realizamos valores, mais sentido tem a nossa vida, mais felizes nós somos. Podemos dizer, como pessoas crentes, que Deus nos criou para realizar valores.
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