Tenho dois amigos em Burma, que a junta militar no governo insiste em chamar de Myanmar, e diante da situação politica difícil pela qual passa o país, entrei em contato para saber como estão, se foram de alguma forma afetados . Burma é um país de maioria Budista, com grande número de mosteiros, onde os monges dedicam-se a meditação e a serviços de manutenção do mosteiro. Sabemos que no Budismo a busca de um estado de transcendência, de uma paz interior, de imersão nos planos espirituais é fundamental como parte da filosofia/religião propalada por Buda. As coisas materiais, terrenas, seculares, são sempre vistas de forma secundária e como sendo de menor valor. Mas então, eis que surge nos noticiários em um dia uma passeata de monges budistas, no dia seguinte outra, e depois mais outra, e não parou mais… Os silenciosos monges ficaram barulhentos, os pacatos monges viraram ativistas, os espirituais monges não só olharam para as coisas terrenas como decidiram fazer o céu descer a terra e foram passear, ou melhor, fazer uma passeata nela.
Aqui no Brasil os religiosos cristãos, e em especial os evangélicos continuam olhando para o seu mundo. Uns para o mundo celestial do porvir, outros para o seu mundo por vir que de celestial só tem a motivação ou o contra-argumento do inferno, é um mundo terreal de muitas riquezas e bem estar. Veja que ironia, os silenciosos e espirituais budistas protestam, e os espirituais protestantes silenciam. Aqueles que vivem a pensar em um reino reencarnacionista que se consubstancia na progressão nirvânica que se dá neste mundo, se conformando ao carma já destinado até que cheguem a luz carmica final tornando-se espíritos evoluídos, estes, ousam olhar para a terra e encarnar/encarar uma luta por melhores dias para o oprimido povo. Nós, conhecedores da verdade, que proclamamos um reino já inaugurado com o advento do Cristo e que se finalizará com sua volta, que temos um compromisso pela inauguração deste reino entre os homens através de nosso testemunho de vida e inserção no mundo, nos omitimos e nos escondemos diante da negação da ética, da obscuração da verdade, do trato do povo como instrumento de auto-manutenção do poder pelo poder. A verdade é que os transcendentes budistas estão protestando, e os protestantes estão transcentalmente meditando.
Por Rev. Jouberto Heringer
Rev. Jouberto é presidente do Sínodo do Rio de Janeiro, professor do Seminário desde 1988, lecionando atualmente Hermenêutica, Exegese do Novo Testamento e Teologia Bíblica do Novo Testamento. Alem disso, também escreve outros textos periodicamente em seu blogger “Fé Reformada“.
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